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Mudar, ou não, um guião de uma locução?
10 de janeiro de 2023
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Tenho por regra nunca alterar o guião enviado pelo cliente quando estou fazer uma locução. Por vezes há erros. Noutras, a forma como algumas frases estão escritas não são a oralidade. Mas nunca altero os textos por livre iniciativa, sem consentimento de quem me contrata.
Sei que os guiões partiram de um brainstorming materializado em apontamentos, depois escritos cuidadosamente, aprovados por vários andares de uma hierarquia empresarial e, por vezes, traduzidos, adaptados. Foram vistos e revistos, lidos e relidos, vezes sem conta, por muitos profissionais. Quem sou eu para meter em causa o que foi redigido por um copywriter e confirmado por diretores, tradutores, proofreaders e, talvez, por alguém do estúdio de locução que me contrata? Eu, que estou no final da linha, não posso, nem devo, comprometer o trabalhar dos outros mudando o guião quando faço a voz-off. Não tenho legitimidade para dizer que uma frase soa melhor de forma diferente, ou para duvidar de que não há erros ortográficos.
Mas…
Apesar de tudo…
Por vezes acontece receber textos com graves erros gramaticais, ou frases que não fazem sentido!
Em 99,7% desses casos, alerto o cliente. Aviso antes de gravar e, normalmente, o cliente agradece a minha iniciativa e corrige-se o guião. Ou aviso depois, ao entregar o trabalho que me foi pedido mais uma versão alternativa com a minha correção.
Em 0,1% dos casos gravo e nada aponto. São locuções de medicina! Aprendi que pode haver frases sem nexo para o comum dos mortais mas que, pelos vistos, fazem todo o sentido para quem domina ciências médicas.
Nas restantes 0,1% das vezes, o estúdio pede-me para não mexer no guião mesmo que aparante ter erros. E, semanas depois, pedem um orçamento para regravar o texto porque, afinal, ele teve que ser corrigido…
Agora…
Sobram 0,1% dos casos em que os guiões estão mal escritos desde o início até o fim! Vejo isso, por exemplo, em manuais de instruções de objectos baratos que são produzidos no outro lado do globo e que, aparentemente, também tiveram traduções para português baratas… Quem sou eu para dizer que o guião tem que ser totalmente rescrito?
Enfim, este texto vai longo… Terá erros!? Como diria o outro, “Herrar é Umano”.
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© Marcos Fernandes