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Partilhar uma língua mas com sabores diferentes. Ou como fazer voz-off para outros países de língua portuguesa
20 de setembro de 2022
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Pedem-me muitas vezes para fazer locuções em português para o Brasil (pt-BR). Na maior parte dos casos é um lapso dos clientes, que desconhecem as diferenças nos sotaques. Explico-lhes que sou de Portugal (pt-PT), que ficaria “artificial” se eu tentasse imitar o sotaque brasileiro e que seria ainda mais estranho um público do Brasil ouvir uma voz-off em português Europeu. Habitualmente, agradecem a explicação e partem em busca de outro locutor. Curiosamente, já me disseram que não fazia mal eu locutor com sotaque de Portugal e também já me pediram para imitar a forma de falar que nós, portugueses, aprendemos há muitos anos com telenovelas do outro lado do Atlântico.
Os brasileiros abrem muito mais a boca nas vogais, usam abundantemente o verbo no gerúndio, têm mais “açúcar” na forma de falar, com mais movimentos de lábios e língua. Em Portugal, falamos com a boca mais fechada, explico aos clientes incautos. Para os brasileiros parece que os portugueses sussurram, usando demasiadas consoantes porque eles não conseguem ouvir as vogais, mudas! É apenas uma perceção, claro.
Agora, consigo imitar o português falado no Brasil? Claro! Mas… Um português a falar como um brasileiro é como ter um londrino a falar como um texano, ou um australiano a simular um sul-africano. Todos se entendem – em teoria! –, mas torna-se evidente que não são falantes nativos.
Há diferenças engraçadas entre portugueses e brasileiros, linguisticamente falando. Por exemplo, “ei, cara” dito no Brasil acontece quando uma pessoa chama por outra. “Ei, cara” em Portugal é um lamento sobre fruta dispendiosa.
Em Portugal dizemos “casa de banho” e no Brasil dizem “banheiro”. Em Portugal, um “banheiro” costumavas er um nadador-salvador.
Em Portugal dizemos “comboio” e no Brasil dizem “trem”. Para os brasileiros, “comboio” é uma fila de carros.
Em Portugal dizemos “cueca” e no Brasil dizem “calcinha”. Para mim, português, calcinhas são calças pequenas, curiosamente conhecidas pelos antípoda calções.
Em Portugal, um “puto” é um rapaz jovem. No Brasil diz-se de alguém que está chateado. Uma “rapariga” no Brasil pode ser entendida como “menina da vida”.
Em Portugal, “propina” é a taxa paga para frequentar uma universidade e no Brasil é o dinheiro ilícito que se recebe num ato de corrupção.
Em suma, por vezes sinto que é preciso ter lata para pedir a um locutor português para tentar fazer voz-off para o Brasil. (Para os leitores brasileiros, quero dizer que é preciso ter cara de pau para pedir a um locutor português para tentar fazer uma voz-off para o Brasil).
E ainda me vão escolhendo para fazer voz-off para Angola, Moçambique e para outros países de língua portuguesa…
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© Marcos Fernandes