Fiz rádio ao longo de quase 20 belos anos e também fui locutor de voz-off em part-time para TV e internet durante boa parte desse tempo. Optei por ter um segundo emprego porque fazer rádio é muito, mesmo muito delicioso, mas não chegava para sustentar uma família, viver comodamente, e salvaguardar poupanças. Nunca me queixei disso. É o cenário comum para quem faz rádio, seja qual for, aqui e lá fora, que vou acompanhado a experiência de radialistas no estrangeiro.
Recentemente, e após anos a ganhar coragem para apaziguar o desgosto amoroso em deixar a rádio, dediquei-me de coração e tempo inteiros à locução freelance de voz-off. É que o amor-primeiro roubava demasiado tempo à paixão paralela. E com isto constatei que a maioria das pessoas, em Portugal, não consegue encarar a locução de voz-off a tempo inteiro como profissão de verdade, um métier sério e viável.
Antes, quando me perguntavam o que eu fazia para ganhar a vida, respondia que trabalhava na Rádio Comercial, na M80 ou no Rádio Clube Português, para enumerar algumas das sensacionais emissoras por onde passei, e que fazia locuções por fora em part-time. A reação habitual era: «A sério, na Comercial!” ou “Uau, M80!” ou “O quê, fizeste o RCP? Rica vida!».
Agora, quando indagam a minha profissão digo que sou locutor de voz-off freelance com estúdio em casa. A reação é sempre uma destas: «Aah… E… Estás bem?» ou “Oh… E dá para viver?» ou «Ok… Mas… Está a ser difícil encontrar um emprego a sério?»
A sério?
A sério!