Para além de locutor, trabalhei recentemente, durante alguns meses, numa agência de comunicação. Das grandes, com muitos funcionários. Foi uma experiência enriquecedora. Mas sempre que me apresentavam a novos colegas, a chefia mencionava que eu vinha da rádio e concluia sempre com “ouçam só esta voz…”
A Caixa de Pandora estava aberta. Pelo menos enquanto a minha boca estivesse.
Andava eu pelos corredores do escritório e alguém me interpelava: «Marcos, diz coisas com voz de rádio!». E eu fingia que estava a apresentar uma música nova. «Marcos, fala connosco!». E eu imitava um noticiário de rádio. «Marcos, diz aí qualquer coisa!». E eu fingia dar a previsão do tempo.
Foi giro. Uma vez.
Duas ou três, vá.
Depois ficou estranho.
Chegou ao ponto de, poucos meses depois da admissão na agência, ter sido abordado por cinco pessoas em momentos diferentes do mesmo dia apenas para dizer qualquer coisa, não importava o quê.
Já não estou na agência. Não era bem o tipo de trabalho que esperava. Mas aprendi, gostei da experiência, e dos colegas.
Mas… Ui… Apesar disso não perdem pela demora. Quando me cruzar com eles na rua vou pedir-lhes:
– “Olha, faz aí um press-release sobre nos termos encontrado”;
– “Analisa o nosso encontro, delineia um plano de comunicação 360 graus sobre como deveria ser o próximo rendez-vous, e discutimos isso numa série de calls semanais, ok?”
– “Escuta-me com atenção, que vou dizer coisas com o meu vozeirão para tu transcreveres, traduzires para outra língua, e tentar impigir a publicação num jornal, ok?”.
